Consagrações: o caminho espiritual da Obra dos Santos Anjos

Em sua admirável providência, Deus nos envia os Santos Anjos para que, em íntima colaboração com eles, formemos uma santa comunidade de combate, um exército espiritual que reza e se sacrifica para a maior glória de Deus, consolidação de seu Reino e salvação das almas, sobretudo no apoio aos sacerdotes e consagrados. Eis aí, delineado em poucas palavras, o cerne da espiritualidade da Obra dos Santos Anjos, a sua finalidade mais nobre.

Contudo, como em qualquer espiritualidade, não se atingem os fins sem um longo caminho de preparação e de assimilação do carisma. Cada espiritualidade possui, evidentemente, uma própria estrutura espiritual, um itinerário de santificação e de ascensão até Deus. Enquanto os beneditinos, por exemplo, escalam os doze degraus da humildade, as carmelitas, por sua vez, avançam pelas sete moradas do castelo interior, símbolo da alma habitada por Deus. Ao mesmo tempo, conhecemos a clássica divisão da vida interior em três estágios: via purgativa, via iluminativa e via unitiva.

Poderíamos citar ainda muitos outros exemplos presentes na Igreja sob a inspiração do Espírito Santo; a Obra dos Santos Anjos é uma delas. Também ela possui um caminho espiritual bastante peculiar, um belo itinerário de santificação rumo à união mais perfeita com Deus: o caminho das Consagrações. Tratam-se de três consagrações que circunscrevem os passos a serem dados pela alma em direção à vivência mais profunda da espiritualidade da Obra dos Santos Anjos: a Consagração ao Anjo da Guarda, a Consagração a Todos os Anjos e a Consagração Expiatória. Todas elas encerram, em última instância, uma específica e cada vez mais profunda ligação do homem à Deus.

Entre elas há uma sucessão lógica e cronológica, assim como um movimento interno de uma consagração a outra. São os passos da nossa subida em direção a Deus.Em primeiro lugar, está o passo da Consagração ao Anjo da Guarda, a porta de entrada na OA. Graças a esta aliança de amor, estreitamos ainda mais a união com aquele Anjo que está mais próximo de nós, servindo a Deus como zeloso pastor de nossas almas.

Esta consagração, ainda que importante e fecunda para a nossa vida espiritual, é também uma preparação em direção às exigências do próximo passo: a Consagração a todos os Santos Anjos. Esta segunda aliança está no cerne da espiritualidade da OA. Por ela, somos integrados decisivamente nas fileiras dos Santos Anjos. É uma consagração de combate e destina-se a realizar aquela íntima colaboração que constitui a essência da nossa espiritualidade.

Ocorre que, na medida em o homem aprende a combater, torna-se cada vez mais claro quais são as armas mais fortes na luta pela salvação das almas. É então quando os olhos da alma se abrem para a grande tarefa da expiação, a arma mais nobre e mais eficaz desta comunidade de combate e, obviamente, de toda a Igreja. O terceiro passo da Consagração Expiatória – expiação como oferta vicária pela conversão dos pecadores e sustento espiritual dos que carregam fardos por amor a Deus – é exatamente aonde os Anjos querem nos conduzir. Esta oferta total de si mesmo, ao contrário dos que muitos pensam, responde ao desenvolvimento normal da vida cristã, é a mais bela imitação de Cristo, a vivência mais perfeita do novo mandamento do amor deixado pelo Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida” – “Amai-vos como Eu vos amei”.

Além desta coordenação cronológica, há também entre elas uma ordenação lógica. Trata-se, pois, da lógica do crescimento e do amadurecimento da alma. Ser-nos-ia possível relacioná-las, uma a uma, com as três fases da vida espiritual, a saber, purgativa, iluminativa e unitiva. Porém, existe uma outra relação, muito mais profunda, que nos permite também situar a espiritualidade da OA no âmago da espiritualidade cristã. É o que acontece quando comparamos a dinâmica das três consagrações com os sacramentos da iniciação cristã – o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. Em outro momento, irei refletir um pouco sobre esta relações.

Entretanto, alguém pode se perguntar: qual a necessidade destas consagrações? Por que elas são tão decisivas a ponto de representarem o caminho espiritual da OA? Ora, pensemos um pouco: se por estas consagrações entendemos a conclusão de uma aliança íntima de amor com os nossos irmãos celestes, devemos concluir que todas elas, a seu modo, estão orientadas a concretizar aquela íntima colaboração entre Anjo e homem que, como já vimos, é a essência da Obra dos Santos Anjos. Ademais, segundo a Mãe Gabriele, “[…] as consagrações estão no centro da Obra dos Anjos enquanto ligação do homem a Deus, a Maria e aos Anjos.” (NS 1953). É por essa razão que o Estatuto da OA, ao tratar de sua estrutura espiritual, descreve-a segundo o caminho ascensional das consagrações. Leiamos o trecho (n. 9):

“A OA articula-se na seguinte estrutura espiritual: a) num conhecimento sobre o que é o Anjo, o que faz e o que quer, mas também o que é o diabo, o que faz e o que quer; b) numa ligação consciente e voluntário do homem aos Santos Anjos, para empenhar-se em comunhão com eles pela vindo do Reino de Deus; c) num ser conduzido à entrega a Deus, à expiação, especialmente pelos sacerdotes.

Ainda que de maneira indireta, o texto do Estatuto delineia o compromisso das consagrações. Fala de uma ligação do homem aos Santos Anjos e no estímulo à oferta de si mesmo a Deus pela expiação. Aqui estão compendiadas a natureza destes três compromissos. Além disso, notemos que o primeiro tópico que integra o edifício espiritual, a saber, o do conhecimento sobre o que o Anjo é, faz e quer”, impõem-se como um prelúdio necessário às consagrações, pois ninguém pode amar o que não conhece. Por isso, antes de assumir qualquer compromisso, deve o homem crescer no conhecimento da doutrina da fé sobre o mundo angélico, contemplar a beleza destas criaturas gloriosas e ser, por fim, atraído por sua verdade: o que são, o que fazem e o que querem de nós.

À esta altura, recordo-vos mais uma vez aquela citação da Escritura que inaugurou o ciclo destas metidações; pouco a pouco, elas adquirem contornos mais precisos diante dos nossos olhos: “Corramos para o combate que nos é proposto…” – Eu vos pergunto: por qual caminho o membro da Obra dos Santos Anjos correrá rumo ao combate? Sim, pela via das consagrações. E por que ele corre neste caminho? Escutemos a confissão do salmista e logo compreenderemos esta bela imagem da Escritura: “Correrei pelo caminho dos teus mandamentos, porque dilataste o meu coração” (118, 32). Se ele corre, não é por medo ou covardia, mas por ter sido tocado (ferido) pelo Amor de Deus. Desde então, não deseja outra coisa senão amá-lo e buscá-lo com todas as suas forças, animado de íntimo ardor – e, por isso, corre. Assim sendo, todos os membros da OA devem igualmente correr neste caminho das consagrações movidos unicamente pelo amor, pelo desejo ardente de Deus – Soli Deo.

Uma questão ainda precisa ser esclarecida: qual a razão de ser destas consagrações, qual o seu sentido último? Justifica-se a pergunta porque, como bem o sabemos, cada cristão, a partir de seu Batismo, já é consagrado a Deus e a santidade à qual é chamado não consiste senão no desenvolvimento pleno das promessas batismais. Além disso, quando analisamos as consagrações que surgiram ao longo da história da Igreja – como, por exemplo, a consagração ao Sagrado Coração de Jesus, ao Imaculado Coração de Maria, a São José – verificamos que o seu conteúdo não difere essencialmente do conteúdo da consagração batismal e crismal. Por isso, qual o sentido de uma nova consagração? Uma uma vez que toda “consagração” se dirige unicamente a Deus, qual o sentido de nos ligarmos a uma criatura, como por exemplo, os Santos Anjos? Não seria desviar-nos da nossa meta? De forma alguma.

Podemos resumir, em uma só frase, o fundamento último destas consagrações: tornar-nos mais plenamente unidos a Jesus em Sua consagração ao Paio que em outras palavras significa vivermos plenamente o mistério da nossa filiação adotiva, em sermos por graça o que Jesus é por natureza: filhos de Deus. Assim, toda consagração – seja ela feita a Maria ou aos Santos Anjos – deve fazer com que a alma participe profundamente daquele Amor que Jesus tem para com o Pai, e que constitui-se o impulso fundamental do Seu Coração de Filho amado.

De fato, a inteira vida de Cristo e todos os Seus mistérios poderiam ser resumidos nesta palavra que São João nos transmite em seu Evangelho: “Diligo Patrem” – “Eu amo o Pai” (Jo 14, 34). Toda a afeição e o amor do Coração de Jesus estavam voltados para o Pai. Disso dá testemunho o autor da carta aos Hebreus ao declarar que o primeiro movimento do coração do Verbo feito carne foi um movimento de amor ao Pai: “Eis-me aqui, ó Pai, para cumprir a tua vontade” (Hb 10, 7). Os trechos da Escritura abundam neste sentido, prova de que esse movimento de amor nunca cessou. Nosso Senhor poderia muito bem dizer: ‘Faço sempre o que agrada o meu Pai’ (Jo 8, 29). Tudo o que o Pai Lhe pede, aceita, até mesmo o amargo cálice da agonia – ‘não se faça a minha vontade, mas a tua’ (Lc 22, 42). Abraça a Cruz, ‘a fim de que o mundo conheça saiba que Ele ama o Pai’ (Jo 14, 31). E, quando tudo está consumado, o Seu último pensamento ainda é para o Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Eis-nos, meus irmãos, diante do DNA da santidade, da essência mesma da vida cristã.

Igualmente, todos os que se consagram aos Santos Anjos procuram, com o auxílio especial (e mais forte) destes irmãos celestes, ser mais plenamente unidos a Jesus em sua consagração ao Pai e associados à corrente de Seu Amor que o levou a oferecer-se ao Pai na Cruz. Podemos aqui entrever o motivo deste caminho das consagrações na OAdirigir-se à expiação. É um mistério de fé e um mistério de Amor… É a nossa Missa de cada dia! Ao mesmo tempo, é possível vislumbrar também a necessidade de uma consagração a Virgem Maria neste caminho, pois, quem de fato associou-se mais perfeitamente à consagração de Jesus? Quem, aos pés da Cruz, uniu-se mais perfeitamente à esta oblação divina? Maria, nossa Mãe. Ele também nos ensinará a correr por esta via, de mãos dadas com os Santos Anjos.

Nas próximas meditações, falarei sobre cada uma das consagrações. No entanto, elas serão tratadas sob um ponto de vista bastante específico: o da transformação da alma (Mãe Gabriele, numa carta circular durante a quaresma 1969, referia-se à Obra dos Santos Anjos como sendo também uma comunidade de transformação). Sem mencionar os aspectos normativos das consagrações, concentrar-me-ei unicamente na obra de transformação que elas desencadeiam na alma graças à ação educativa dos Santos Anjos. A natureza e o teor da educação angélica certamente variarão de uma consagração a outra; como sabemos, a vida espiritual tem suas fases e lições graduadas. Todas as três, porém, orientam-se para o mesmo fim: a gloriosa meta da união com Cristo e à participação mais perfeita possível de Seus mistérios. Com isto, pretendo mostrar-vos em que medida o caminho ascensional das consagrações representa um autêntico caminho de santificação, a senda peculiar da Obra dos Santos Anjos.