Na Escola do Santo Anjo: o primeiro passo da Consagração ao Anjo da Guarda
Nas meditações precedentes procurei conduzir-vos à compreensão da essência do Opus Angelorum, sua missão na Igreja e o caminho espiritual que a caracteriza. Mais do que um vislumbre geral dos assuntos, elas nos estabeleceram na perspectiva dos Santos Anjos e de seu querer. O que vem a ser esta perspectiva senão aquela do combate atual contra os poderes das trevas? E o que querem senão sustentar e inserir o homem, cada vez mais, nesta luta espiritual pela glória de Deus e salvação das almas?
Anjos e homens, unidos por uma aliança de amor consecratória, formam um belo exército na Igreja, uma autêntica comunidade de combate, cuja arma invencível é o Amor: amor que se sacrifica, que se doa, que intercede, que perdoa, que traz luz e calor aos ambientes já bastante infectados pela escuridão e frieza malignas. Donde vem a invencibilidade do Amor? Da Cruz de nosso Senhor, cuja força confunde o inferno e desfaz seus planos. Só quem estiver imbuído deste Amor, só aquele que for capaz de “permanecer no Amor” (cf. Jo 15) estará pronto para combater com os Santos Anjos.
Uma tal prontidão, porém, pressupõe uma longa educação interior destinada à aquisição de virtudes sólidas. Viver de amor é uma condição que não se improvisa. E aos que desejam ingressar nas fileiras dos Santos Anjos, impõe-se necessariamente uma rigorosa formação, sem a qual correm o risco de trair, como Judas Iscariotes, os compromissos assumidos diante do Senhor. É por isto que no cerne da estrutura espiritual da OA resplandece um maravilhoso caminho de amadurecimento, a via ascensional das consagrações. Pois bem, o primeiro passo que inaugura esta educação do homem e o introduz na Escola do Anjo é a Consagração ao Anjo da Guarda.
Antes de descermos aos detalhes desta educação, vejamos o que nos diz o Estatuto a respeito desta primeira aliança:
“O sentido da Consagração ao Anjo da Guarda é a ligação ao próprio santo Anjo da Guarda para que sua ajuda se possa tornar muito mais eficaz em nós e progridamos mais rapidamente no caminho para Deus. O santo Anjo da Guarda deseja empregar toda a sua força a fim de que nunca mais nos apartemos de Deus. Quer falar-nos mais nitidamente mediante admoestações interiores, estimular-nos mais para o bem, advertir-nos dos perigos, iluminar a nossa mente, para penetrarmos mais profundamente no conhecimento de Deus, no temor de Deus e no amor a Deus, na grandeza e no significado da palavra de Deus” (E 17).
Basta uma leitura atenta para que a definição do Estatuto revele o teor eminentemente educativo da Consagração ao Anjo da Guarda. O texto aponta-nos para a existência de um caminho para Deus e de que, neste, pode-se progredir. Sem dúvida, trata-se do progresso na santidade, do crescimento na união com Deus e na perfeita conformação à sua Vontade. Em seguida, além de sublinhar o caráter dinâmico da vida cristã, o estatuto acrescenta que este progresso pode ser feito mais rapidamente. E de que modo? Através da ajuda do Santo Anjo, a qual, após a Consagração, torna-se muito mais eficaz. E isto não porque a consagração aumente a força do Anjo, mas porque o homem, nestas disposições de abertura, disponibilidade e docilidade, não interpõem nenhum obstáculo à sua obra. Assim, podendo agir livremente sobre o seu protegido, o Anjo pode “empregar toda a sua força a fim de que ele jamais se aparte de Deus”.
Porém, onde ou como poderá o homem reconhecer a atuação eficaz desta força no seu dia a dia? O estatuto nos dá algumas indicações sobre isso: fala-se em admoestações interiores, estímulos para o bem, advertência dos perigos e, em suma, iluminações destinadas a fazer-nos crescer no conhecimento de Deus e saborearmos ainda mais os Seus Mistérios, Sua Palavra e Seu Amor. Estes exemplos, é claro, não pretendem limitar o campo de ação do Anjo, o qual, dono de uma intuição e criatividade admiráveis, consegue aproveitar as mínimas circunstâncias para nos transmitir sua luz e sua força. Ademais, por esta Consagração o Anjo da Guarda transmite à alma a alegria de um novo fervor, o temor de Deus e a capacidade de discernimento, quer dos seus deveres, quer dos perigos que a ameaçam constantemente.
Todo este panorama da intervenção do Anjo da Guarda porventura não perfaz uma verdadeira escola de santidade? Sem dúvida, a Consagração ao Anjo da Guarda, além de ser a porta de entrada na Obra dos Santos Anjos, introduz o homem na Escola do Santo Anjo, o princípio de um belo itinerário de amadurecimento espiritual.Nela, o futuro combatente – e que, por ora, é admitido como recruta – será submetido pelo Anjo a um profundo processo de transformação que o torne apto para os combates vindouros, pois, como nos recorda Mãe Gabriele, “só quando formos transformados, nos tornaremos capazes de intervir com êxito na batalha.”
Mas, por onde começar esta educação? Em que direção o Bom Anjo deseja empregar as suas forças? Sobre isto, os textos de nossa Mãe abundam. Segundo o seu ensinamento, todo o empenho inicial desta educação deverá ocupar-se da formação interior. De que valeria uma exterioridade bem arranjada e louvável aos olhos dos homens se, no coração, subsiste ainda uma queixa sutil contra a vontade de Deus e as disposições de sua providência? Tais almas assemelham-se ao terreno pedregoso da parábola do semeador: por falta de profundidade – interioridade – nada nela pode enraizar-se. São superficiais, levianas. Ser fervor é intermitente e facilmente se escandalizam ante o mistério da Cruz. Almas desta casta jamais perseverarão no combate. Por isso,Mãe Gabriele recordava que: “Cada um deve considerar o crescimento interior como sua primeira e mais urgente tarefa, de outro modo, os Anjos não podem fazer nada.” Em outro momento, ao pontuar a natureza da Obra dos Santos Anjos, ela conclui: “Não devemos ser um clube pacifista, mas uma comunidade de combate. Para tanto, temos de ser interiormente preparados e comprovados. Primeiro deve-se realizar a interiorização da nossa alma, seu acrisolamento e purificação, para que a força de Deus habite nela”.
O caminho de transformação, portanto, há de se começar pelo interior. Porém, em que consiste esta obra de transformação da alma? A que ela se aplica? Diz respeito a um trabalho fortemente marcado por um duplo movimento de morte e vida, à semelhança da imagem evangélica do grãozinho que, lançado à terra, deve morrer para dar fruto: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto.” (Jo 12, 24). Na verdade, este duplo caráter de morte e vida não faz eco senão ao efeito sacramental do Batismo, por meio do qual somos configurados ao mistério da morte e da vida de Cristo.
Há aqui um ponto de comparação muito fecundo entre a consagração ao Anjo da Guarda e o Batismo, pois ambas representam, num primeiro momento, graças de cunho pessoal. Como já vos disse na meditação precedente, é possível estabelecermos algumas associações entre o caminho ascensional das consagrações e os sacramentos da iniciação cristã.
Continuemos a nossa reflexão. O Catecismo ensina que “O batismo significa e realiza a morte para o pecado e a entrada na vida da Santíssima Trindade, através da configuração com o mistério pascal de Cristo” (CIC 1239). Pois bem, na Escola do Santo Anjo a dinâmica não poderia ser diferente. Nela, a índole desta obra de transformação haure a sua fecundidade diretamente do mistério pascal do Senhor. De mãos dadas com o Santo Anjo e sob o influxo de sua educação, o “homem velho” é sepultado com Cristo para que, “considerando-se morto para o pecado, viva unicamente para Deus” (cf. Rm 6, 11). Como se vê, a alma é chamada pelo Bom Anjo a reviver em si mesma um mistério pascal pessoal de morte e ressurreição espirituais.
Esta educação interior na escola do Santo Anjo, portanto, aponta para dois momentos principais: primeiro morrer, para então viver. Cada membro do Opus Angelorum é como um pequenino grão de trigo lançado nas mãos de seu Anjo. Destinado a render muitos frutos, este grão deve, antes, morrer – e morrer em direção a Deus, para dentro de Deus. Só então poderá viver, frutificar… e combater.
O que significa, para o Anjo, este morrer? Antes de mais nada, significa a morte para o pecado, ao mesmo tempo que o cultivo de uma contínua compunção do coração (contrição contínua) que estabeleça a alma na verdade e na humildade. Mas também, e sobretudo, a transformação do próprio “eu” que, desde o pecado original, está inclinado a debruçar-se continuamente sobre si mesmo, a incensar a própria vontade, a viver numa “autocontemplação e autocompaixão” que degenera a alma e a torna um joguete nas mãos do inimigo infernal. Sem um exame atencioso destas vulnerabilidades presentes na natureza humana correr-se-ia o risco de tornar superficial e ineficaz qualquer empenho formativo. E o resultado não poderia ser mais trágico: sob o verniz da piedade, ocultar-se-ia as estruturas podres de um coração insensível, obstinado e desobediente à Lei de Deus.
Por outro lado, o que significa, para o Anjo da Guarda, a outra dimensão do viver? É a total reorientação do “eu” humano, já mortificado e amorosamente aniquilado, em direção ao “Tu” divino, ao Seu Amor, à Sua vontade: “Pai, não seja feita a minha vontade, mas a Tua” (Lc 22, 42). Uma vez libertado das cadeias do “eu”, o homem está livre para correr em direção a Deus. Estimulado por seu Anjo, ele esforça-se por impregnar o seu dia do espírito de oração e de sacrifício. Seu olhar só tem uma única direção: a Cruz. Pouco a pouco, do trono de sua arrogância inicial, o homem aprende a ser servo: servo como Cristo, cujos olhos estiveram sempre voltados para o Pai; servo como Maria, cuja vida não foi senão um cântico de ação de graças à Vontade de Deus; servo, por fim, como o Anjo, cuja alegria consiste em poder servir ao Deus Uno e Trino. No âmago deste servir está a prontidão para o sacrifício, a arma invencível da expiação.
Só quem for servo – e com isto queremos dizer aquele estar total e firmemente voltado para Deus – é capaz de combater fielmente junto ao Santos Anjos e de avançar no caminho espiritual do Opus Angelorum. Eis aí o mais belo fruto desta transformação interior, o mais belo aprendizado na Escola do Santo Anjo. Deixar-se formar pelo nosso irmão celeste é a via mais segura para nos tornarmos verdadeiros combatentes, corredentores com Cristo na obra da salvação. Esta educação, segundo Mãe Gabriele, “é o primeiro propósito dos nossos Irmãos celestes na sua Obra.” Nas próximas meditações, irei mostrar-vos, a partir dos textos da Mãe Gabriele, como esta educação se concretiza no dia a dia.
Ao fim desta conferência, gostaria ainda de acrescentar um outro detalhe. De maneira geral, toda escola, além de mestres e livros à sua disposição, possui uma disciplina que regula e assegura os frutos do aprendizado. Não poderia ser diferente na Escola do Santo Anjo, cujo regime disciplinar é bastante específico. Aqui, três atitudes são exigidas pelo Anjo: silenciar, escutar e obedecer. Esta tríade constitui a ascese por excelência da Obra dos Santos Anjos.
Obedecer ao Anjo é, sem sombra de dúvida, o compromisso mais importante na formação espiritual. Porém, isto só é possível mediante o silêncio e a escuta que, juntos, constituem a possibilidade de qualquer resposta do homem ao Senhor. É por isso que lemos na Sagrada Escritura a seguinte ordem de Deus, quando promete enviar ao homem um anjo protetor: “Mandarei um Anjo à tua frente […] Respeita-o e ouve a sua voz!” (Ex 23, 20-21). O belo título de Pastor atribuído pelo Catecismo ao Anjo da Guarda não faz mais que reafirmar a importância desta disposição de escuta. Pois ovelhas orientam-se mais pela voz do seu guia do que pela visão indistinta de sua presença: “Minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10, 27).
Para o bom funcionamento desta escola espiritual, portanto, exige-se do aprendiz não somente a capacidade de obedecer, mas também de silenciar e escutar. Só assim a alma poderá perceber e discernir, em meio a agitação do dia a dia, a preciosa admoestação do Anjo que ressoa suavemente na voz de sua consciência; só assim poderá o Anjo empregar toda a sua força para que “jamais se aparte de Deus” este talento que lhe foi confiado. É o mistério inescrutável que faz da Escola do Anjo um belíssimo caminho de transformação, caminho de “morte para o pecado e vida para Deus” (Rm 6, 11).
